Freud e o Confessionário
Em seus estudos sobre religiões e culturas antigas, literatura e medicina, chega a parecer que Sigmund Freud emprestou ao confessionário e sua técnica uma importância invulgar, embora em qualquer de suas obras tenha eu visto ou tido notícia de que jamais tenha ele interligado uma coisa com a outra.

O essencial dessa técnica seria a Catarse — que etimologicamente significa purgação, purificação, limpeza — ou, mais do que isto, seria o efeito salutar provocado pela conscientização de uma lembrança fortemente emocional e/ou traumatizante, até então reprimida.
Como certo, temos que um processo é secularmente antigo e o outro tem pouco mais de 100 anos. E nas minhas divagações imaginativas lembrei-me que o pano espesso e roxo que separa o confessando do confessor destina-se a não inibi-lo, antes de torná-lo apenas um desconhecido. Curiosamente, na técnica psicanalítica de Freud, a poltrona do médico fica, durante a sessão, às costas do analisando para desinibi-lo na sua Catarse ou “confissão”.

O confessor e o analista, ambos em sua missão de aliviar as angústias do semelhante, só intervêm com observações altamente éticas e cada uma delas alicerçadas nos valores morais em que acreditam. Ambos com um desiderato altamente positivo.
Em verdade, trata-se de uma catarse a dois, pois sempre ambos — esta é a presunção — confessando e confessor, médico e paciente, atuam sob a égide do segredo, ora profissional ora de confessionário, cada qual altamente importante, pois capazes de reconstruírem um ser humano (ou também, com a mesma força, destruí-lo).
Observando as várias similitudes entre Freud, sua Psicanálise e o Confessionário, encontrei inclusive que ambos exigem basicamente uma “expiação” pelos “pecados”. O Confessionário impõe a penitência, em forma de várias orações, feitas em genuflexão, por vezes altamente cansativa e até mesmo dolorosa para os joelhos e a postura da coluna. Quanto à Psicanálise, a “expiação” se daria através dos honorários cobrados pelo Analista, geralmente compatíveis com a importância da cerimônia médica.
O curioso é que também, nas duas vertentes, se o ato “expiatório” não for realizado— é consenso — poucas serão as chances de que a paz seja reencontrada por quem a busca. Ficam estas especulações à apreciação dos amáveis leitores.
Rubens Amador
O cronista acerta em cheio, neste ousado paralelo entre ciência e religião. À base da proposta acima, que fica aqui como contribuição ao debate, ouso eu agora resumir as seguintes sete semelhanças e três diferenças (8-10) entre a confissão católica e a psicanalítica:
- A fala alivia a tensão, especialmente a dos sentimentos de culpa.
- O discurso associativo livre amplia a conscientização de lembranças.
- A intimidade e o segredo desinibem a expressão, obtendo mais revelações.
- Não olhar nos olhos do outro facilita a introspecção.
- Quem fala é ouvido totalmente, sem crítica nem obstáculos.
- Quem ouve não julga, mas faz observações éticas.
- Ambas técnicas enfatizam mais no sofrimento do que na reparação.
- A posição física busca: arrependimento (de joelhos) ou relaxamento (recostado).
- A frequência das sessões (anual ou diária) busca conservar ou transformar a transferência.
- A retribuição do paciente (penitências ou pagamento) vai à Igreja ou ao analista.